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DA PÓLIS AO IDIOTA: O QUE OS GREGOS AINDA TÊM A ENSINAR SOBRE POLÍTICA E CIDADANIA

Por Adriano Gomes*


Ah, os gregos... esses homens de túnica, barba comprida e uma paixão por debater que dava gosto! Eles inventaram tanta coisa que a gente usa até hoje, e uma das maiores invenções deles foi a Política. Mas calma lá, não pense que é a mesma coisa que a gente vê na televisão, com discursos enrolados, promessas que somem mais rápido que dinheiro no fim do mês e aquela briga eterna de partidos. Para os gregos, política era coisa séria, mas também era coisa de gente viva, de gente que queria fazer a cidade funcionar.

A palavra vem de Pólis, que significava a cidade-estado, o pedacinho de mundo onde a gente morava, convivia, resolvia a vida. Eles diziam que política era a "arte de viver em conjunto", a ciência de organizar a vida de todo mundo. Tinha um lugar especial para isso, chamado Ágora: era a praça central, o ponto de encontro, o shopping center da época, só que sem loja de roupa e com muito mais conversa séria. Lá, os cidadãos se juntavam, debatiam, gritavam, concordavam ou brigavam, mas no final decidiam tudo o que era importante para todos. E Aristóteles, que entendia tudo de tudo, soltou a frase famosa: o ser humano é um zoon politikon, ou seja, um "animal político". Traduzindo para o nosso português: ninguém vive sozinho, ninguém se realiza direito trancado em casa; a gente só fica completo quando está na rua, participando, fazendo parte do coletivo.

Só que o tempo passou, o mundo cresceu, as cidades ficaram gigantes, e a política foi mudando de cara. Hoje em dia, muita gente acha que política é só "negócio de governo", "coisa de político", algo distante, burocrático, cheio de papelada e regras complicadas. Parece que a política foi empurrada para um canto, virou profissão de poucos, e o cidadão comum ficou olhando de longe, pensando: "Ah, isso lá é comigo? Deixa que eles resolvem...". E aí, meus amigos, perdemos algo muito valioso: aquele sentimento de que a cidade é minha, que o espaço público é meu, e que eu tenho sim, e muito, a ver com o que acontece lá. A política deixou de ser "nossa" para ser "deles", e o resultado é que muita gente acha que não precisa nem saber, nem opinar, nem participar.

Agora, vamos falar de uma palavra que todo mundo conhece, usa e abusa: Idiota. 🤡 Quando falamos isso hoje, estamos chamando alguém de burro, de sem noção, de pessoa que não entende nada, não é mesmo? Mas acredite se quiser, lá na Grécia Antiga, o significado era totalmente diferente, e muito mais profundo. A palavra vinha de idios, que quer dizer "próprio", "particular", "privado". O tal do idiotes era simplesmente o cidadão que vivia só para si, que só se preocupava com o seu quintal, o seu dinheiro, a sua família, e não ligava para nada do que acontecia na cidade, na vida pública, na política. Não era falta de inteligência, não! Era falta de interesse, falta de compromisso, falta de ver que ninguém vive sozinho.

Péricles, um dos caras mais importantes de Atenas, já falava que esse tipo de pessoa, o idiotes, era "inútil para a comunidade", porque ele só olhava o próprio umbigo. Aristóteles também não poupava críticas: para ele, quem vivia só na vida privada, sem se meter nos assuntos da cidade, ou era um bicho, ou era um deus — porque só essas duas coisas não precisam de ninguém para viver. O ser humano, não! O ser humano precisa do outro, precisa da cidade. Mas o tempo passou, a palavra viajou, foi parar no latim, mudou de sentido, foi misturada com outras ideias, e hoje, infelizmente, esquecemos toda essa história bonita e crítica, e usamos "idiota" só para ofender quem erra uma conta ou fala besteira. Que desperdício de um conceito tão bom!

E sabe o que é mais engraçado e preocupante? Hoje em dia, o idiotes grego está mais vivo do que nunca, só que com roupas modernas. É aquele vizinho que reclama de tudo, mas nunca vai a uma reunião do bairro. É aquele que diz com orgulho: "Eu odeio política, não gosto de saber, não me envolvo!". É o que acha que seu voto não vale nada, que nada vai mudar, então fica na sua, vendo televisão e reclamando, mas sem mover um dedo para ajudar. O grande educador Paulo Freire, junto com o poeta Bertolt Brecht, já falava do tal "analfabeto político": aquele que não sabe, não quer saber, acha que política é suja, e acaba deixando tudo nas mãos de quem não devia, e ainda reclama do resultado. Esse aí é o nosso idiota moderno: não porque é burro, mas porque é alheio, é afastado, é ausente.

Mas olha, nem tudo está perdido! 🚀 Pensar nisso tudo nos faz ver que talvez esteja na hora de tentar trazer de volta um pouco daquela velha e boa Pólis. Não é para voltar a usar túnica, nem morar em cidade pequena, nem decidir tudo no meio da praça como antigamente, claro! Mas é para resgatar o espírito da coisa. É para entender que política continua sendo, e sempre será, a arte de organizar a vida de todos nós. É para lembrar que a rua é nossa, a escola é nossa, a saúde é nossa, e que ninguém vai cuidar disso direito se nós mesmos não nos importarmos.

Resgatar a Pólis é entender que a Ágora hoje pode ser a reunião da associação de bairro, a assembleia da escola, a discussão séria e respeitosa nas redes sociais, o voto consciente, a participação nos conselhos da cidade. É perceber que o problema do outro também é meu problema, porque vivemos todos juntos no mesmo barco. E mais: é parar de ser "idiota" no sentido grego da coisa! É sair da zona de conforto da vida privada, levantar a cabeça, abrir o olho e dizer: "Eu faço parte disso, eu tenho a ver com isso, eu quero participar disso!".

Para fazer isso dar certo, tem algumas coisinhas simples mas fundamentais que precisamos aprender de novo. Primeiro, a Educação Cívica: não é só aprender a ler e contar, é aprender a entender como a sociedade funciona, quais são os nossos direitos e os nossos deveres, e por que a política é importante — sim, ela é importante, por mais bagunçada que pareça. Depois, precisamos de Espaços de Diálogo: lugares onde a gente possa conversar, debater, discordar sem brigar, entender o ponto do outro, como faziam os gregos na Ágora. Não adianta só gritar, tem que argumentar, tem que ouvir.

Também temos que assumir a Responsabilidade Compartilhada: a sujeira na rua, a falta de segurança, a escola que precisa de reforma, tudo isso é problema de todo mundo, e só vai ter solução se todo mundo ajudar a achar. E claro, exigir Transparência: tem que saber o que é feito com o dinheiro público, como as decisões são tomadas, para ninguém fazer o que bem entende escondido da gente.

No final das contas, resgatar a Pólis não é sonhar com um mundo perfeito que não existe, nem achar que antigamente tudo era melhor — porque não era, não vamos mentir. Mas é querer um mundo onde a política seja novamente vista como algo bom, algo necessário, algo que faz parte de quem nós somos. É um mundo onde ser cidadão significa, antes de tudo, estar presente, se importar e participar. Um mundo onde o tal do "idiota", o cara que vive só para si e não liga para o resto, seja cada vez mais raro, e onde a regra seja ver gente engajada, gente que entende que construir a sociedade é tarefa de todo dia e de toda gente. Afinal, como já diziam os sábios de Atenas: só vale a pena viver numa cidade onde cada um se sente dono e responsável por ela! 🤝✨





* Escritor, Professor e Pesquisador. Doutor em Psicanálise Clínica (UEG), Mestre em Ciência Política (UFAM) e Graduado em Pedagogia (UNIP), em Filosofia (FAVENI), em Geografia (UEA) e em Ciências Contábeis (UniGrande).

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