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CAFUNÉ IDENTITÁRIO: A CRISE DOS TRÊS PODERES

Atualizado: 17 de dez. de 2023



Por Alexandre Gossn*


Sérgio Abranches (autor que reconheceu e cunhou o nome PRESIDENCIALISMO DE COALIZÃO) e Rubens Ricupero (diplomata e ex-ministro do Meio Ambiente) são dois nomes que pontuaram bem o que está acontecendo no Brasil desde ao menos 2012.


Em entrevistas distintas, ambos fazem o mesmo diagnóstico e com o qual concordo: há um enorme descompasso em nosso sistema político entre o que a maioria dos eleitores deseja nas eleições majoritárias e como o eleitorado vota nas eleições proporcionais.


Nas primeiras, em geral, os eleitores ainda buscam nomes tarimbados, provados e que evocam experiência, mesmo que ruim em diversos sentidos. Nas segundas, o eleitorado está tomado por uma política de nichos, optando por candidatos que ofereçam o que chamo de CAFUNÉ IDENTITÁRIO, isto é, ofereça algo para a afirmação da nossa identidade.


A consequência deste processo social que veio avançando gradualmente é que as eleições têm parido EXECUTIVOS E LEGISLATIVOS muito destoantes.


É muito difícil encontrar sinergia em atores políticos que foram eleitos por causas se não muito diferentes, às vezes até opostas.


Só que estamos em fase de agudização de um processo de "PARLAMENTARISMIZAÇÃO" DO PAÍS desde a queda de Dilma, seguida do abate de Temer pelas denúncias dos irmãos Batista. Bolsonaro sempre foi um presidente sem articulação e que terminou de entregar o pouco poder que tinha por meio do Orçamento Secreto.


E o quadro progrediu no começo desta legislatura, com o Congresso agora avançando até mesmo em decisões tipicamente do Executivo, como o formato dos ministérios e secretarias, assim como a dotação de verbas destes e funções institucionais. Por outro lado, o Congresso deixa de legislar uma porção de temas que urgem, dando espaço (e o poder, como se sabe, não tem vácuo) ao STF para que institua regras sociais por meio de sentenças que deveriam ser leis se o Legislativo agisse.


Há mais de décadas a nossa crise não é somente de nomes como Lula, Bolsonaro, Dilma ou Temer, mas de um formato político que se prestou razoavelmente a um Brasil mais agrário e composto de cidades pequenas da constituinte, porém hoje é dominado por um cenário cosmopolita, de inúmeras cidades médias e outras tantas grandes.


A questão é que estamos votando para presidente e governador com o animus de cidadão de grandes cidades e elegendo parlamentares embalados em espírito paroquial.


É a receita para o fracasso.



* Pesquisador e Doutorando em Ciências Sociais junto ao Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, com ênfase em Filosofia Política e Autoritarismos Contemporâneos. Escritor, Mestre em Direito Ambiental e Advogado.

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