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AINDA FAZ SENTIDO TERMOS NORMAS DE FORMATAÇÃO PARA REFERÊNCIAS?



Por Ricardo Cortez Lopes*


Logisticamente falando, o trabalho científico, antigamente principalmente antes da computação —, era bem mais complexo de executar do que é agora.


Por exemplo: apenas para fazer uma revisão bibliográfica, por mais simples que fosse, implicava em ir até uma biblioteca e pesquisar catálogos. Dos livros encontrados, era preciso buscá-los nas prateleiras para, depois, começar a lê-los e selecionar o que é relevante. Isso sem a ajuda do ctrl+f. Depois disso, achando algum trecho relevante, você o copiava a mão (fichando), para só depois digitar todas as informações em um mesmo momento, provavelmente em uma máquina de escrever.


Multiplique por 100 se você precisava se deslocar para outro país. E multiplique de novo se você fazia, também, procedimentos quantitativos como testagens estatísticas ou mapeamentos, ou mesmo coleta de formulários; era preciso buscar ou receber por correio.


Do ponto de vista logístico, hoje em dia a operação de pesquisa também é significativamente mais fácil: você consegue encontrar bastante material online, muitos estão digitados (se não estiver, alguns softwares conseguem digitalizar a foto para você). Além disso, é possível salvar o seu trabalho em muitos locais e recuperá-lo sempre que precisar; consegue encontrar e registrar com mais facilidade o que lhe é relevante. Até falar com pesquisadores de outro continente é possível em poucos segundos. Você não precisa nem mandar um manuscrito para o orientador, gastando com xerox ou impressão: com a computação em nuvem, vocês editam o mesmo documento até o momento da defesa ou da publicação.


É claro que nem tudo são flores nesse meio. Pense que nem todo material que você precisa está digitalizado e nem sempre uma foto consegue ser tão nítida quando deveria ser. Mas essas tecnologias ajudam a levantar uma interrogação: a formatação de referências ainda é necessária? Que tal refletirmos um pouco sobre esse assunto?


Quando falo em formatação de referências, estou me referindo à atividade de colocar em ordem todas as informações e tê-las todas à mão acaba sendo essencial. Parece simples, correto? É só pegar as informações e as inserir. Mas na prática é bem diferente. Haverá bibliografia que não possui todas as informações; vai existir outras em que constará catalogação errada e um olho mais detalhista vai perceber provavelmente na hora de uma banca; os países catalogam diferentemente, mudando as informações que consideram relevantes; os sistemas sofrem transformação quem lembra do rebuliço que deu o sistema de citação (AUTOR, DATA)?; e, por fim, existem diferentes sistemas de formatação, como ABNT, APA, Vancouver, entre muitos outros.


Se tudo isso não bastasse, um último argumento demonstra as dificuldades da formatação: a existência de free-lancer e consultorias, que você paga para se debruçarem sobre o seu texto. Ou seja, tudo o que é demorado ou difícil gera algum tipo de serviço ou de produto. Nesse caso, quando você vai enviar um artigo para uma revista, por exemplo, ela tem as suas normas e seus templates e se você vai submetê-la de novo, mais formatações e templates precisarão ser refeitas. Isto é, existe uma espécie de retrabalho nessas mudanças de formatação, e perde-se tempo de reflexão ou de escrita.


A pergunta que pode ser levantada é: será que é preciso isso tudo? Será que, na era digital, eu não encontro na biblioteca um artigo que estiver com o número ou o volume faltando? Será que não consigo encontrar a informação de jeito nenhum na internet? Pode ser que não consiga em alguns casos, mas será que todos os documentos não corretamente referenciados ficam impossíveis de serem encontrados?


A questão é que cada publicação (acadêmica ou não) deixa rastros digitais. É claro que um site pode sumir, um arquivo pode ser excluído, tudo isso é possível. Mas também o arquivo já está salvo no computador de alguém, que pode subir o arquivo de novo celebridades que o digam; existem também sites como Wayback machine, que conseguem recuperar URLs de 12 anos atrás.


O meu ponto é que a formatação, de fato, ajuda o leitor a achar a informação mais rapidamente (porque facilita encontrar elementos), mas não podemos também ser ortodoxos. Será que devemos mesmo recusar um texto porque ele não tem as referências completamente em ordem ou faltando informações? Será que uma entrada errada não pode ser batida com outras informações e, assim, encontrarmos a informação correta de algum artigo ou documento vital? Será que, com as facilidades já apontadas, não é possível depois substituir o arquivo com erros por um certo (retificado)? Afinal, as revistas que não são de papel tem essa grande vantagem. Acredito que nem mesmo seria necessário ficar colocando limite no número de páginas de um artigo. Talvez essa medida pudesse ajudar alguns autores a desenvolverem melhor as suas ideias.


Em síntese, apenas estou argumentando para não colocar formatação como um critério de avaliação, especialmente quando existe submissão e um texto ainda não foi aceito. Ao menos que se espere o texto ser avaliado e aceito pelo seu conteúdo e sua contribuição para a área, para depois dar os retoques finais.


E você, o que acha desse assunto? Seu perfil é de uma pessoa que adora formatar? Você paga alguém?



* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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