A UNIVERSIDADE NÃO CABE NO QUARTO
- Gustavo Bertoche

- há 4 dias
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Por Gustavo Bertoche*
Há um tempo, recebi uma mensagem privada de uma senhora muito brava. Ela estava revoltada com a minha afirmação de que a "universidade a distância" é uma fraude.
Seu argumento: o modelo EAD permite o acesso à universidade a quem trabalha oito horas por dia, ou a quem mora longe dos centros urbanos, ampliando assim suas oportunidades profissionais.
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O problema é que o propósito do ensino superior não está na empregabilidade. O propósito fundamental da universidade é o de exigir dos estudantes a vivência num ambiente completamente diferente daquele de sua casa, de seu bairro, de sua cidade; é o de apresentar aos estudantes a vida no ambiente em que a ciência é produzida.
Isto é: a universidade existe justamente para retirar os jovens de suas circunstâncias e mostrar-lhes o mundo da cultura superior.
Sem que se saia, de corpo e alma, de sua região geográfica, sem que haja a convivência por anos com colegas e com professores num campus, o curso superior não passa de um ensino técnico a distância: cumpre um papel de certificação profissional, mas é algo completamente distinto da participação na vida universitária.
Em suma: uma mesinha com um computador no seu quarto absolutamente não é uma universidade; prezada, você foi enganada pelo MEC.
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No mais, é mesmo difícil e caro freqüentar a universidade, e para uns é mais difícil e caro que para outros.
No fim do século XIX, a França enfrentou o problema de levar os jovens camponeses à universidade. O Estado francês encontrou a solução: a instituição de milhares e milhares de bolsas por ano. Sim, toda aquela brilhante geração de professores e cientistas franceses da primeira metade do século XX recebeu dinheiro para fazer estudos superiores. (Sobre isso, o livro a ser lido é o clássico "La république des professeurs", de Albert Thibaudet).
Deveríamos seguir um caminho semelhante: não somente pagar o estudo de nossos futuros cientistas e professores (por meio do ensino superior gratuito mantido pelos nossos impostos), como também pagar-lhes generosas bolsas de estudo para que possam dedicar-se com exclusividade à sua preparação intelectual, da qual depende o futuro do país. (Nesse sentido, o programa "pé-de-meia licenciaturas" é uma iniciativa que deve ser elogiada, embora a bolsa seja ridícula — o aluno pode sacar R$ 700,00 por mês).
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Nos últimos vinte anos, o Estado brasileiro, em conluio com os bilionários proprietários de conglomerados educacionais, decidiu enganar os jovens — fazendo com que acreditem frequentar a universidade, quando de fato acessam, pelo computador no cantinho do quarto de dormir, o que não passa de uma pobre simulação. Para beneficiar os empresários amigos, o Estado escolheu o caminho da fraude.
* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).


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