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A POBREZA DE EXPERIÊNCIA NO BOLSONARISMO

Atualizado: 25 de fev.



Por Audi Roberto Rodrigues*


Para Walter Benjamin, o que marca a complexa sociedade moderna é uma ambiguidade entre os processos civilizatórios que permeiam nossa realidade. Para tanto, o que ele chama de pobreza da experiência na sociedade moderna é justamente a incapacidade dos indivíduos de narrar suas próprias histórias e singularidades. Nessa ótica, há em relação a esse fenômeno de extrema direita, ao nosso ver, umas certas similaridades dos processos psíquicos dos que Benjamin apontou entre os soldados vindos do front da primeira guerra mundial. Ou seja, a perda da capacidade de narrar os fatos, bem como os enormes déficits que caracteriza boa parte do pensamento desse novo extremismo de direita no Brasil. Operando, dessa maneira, na lógica de uma certa pulsão de morte (FREUD) que entre esses grupos está muito mais presente, em suas relações pessoais e de sociabilidade. Na logica bolsonarista, os horrores aos avanços da dita sociedade moderna são usados como ponto de apoio para justificarem suas demandas de ódio e ressentimento. Temas relacionados a igualdade de gênero, casamento entre pessoas do mesmo sexo e cotas raciais para a população mais desfavorecida são vistos pelos apoiadores de tal movimento como a decadência da humanidade.


Nessa perspectiva, Theodor Adorno nos dá um direcionamento para entender esse novo extremismo de direita após o nazismo e fascismo do século passado; para ele, em escrito dos anos 60, esses fenômenos podem ser entendidos de várias maneiras e que de certa forma se completam. Freud, em ensaio intitulado “ psicologia de massas e analise do eu”, atenta-nos sobre a capacidade que movimentos de massas possuem em atrair novos membros e a partir daí esses indivíduos perdem toda sua singularidade e seus individualismos, partindo então para um movimento psíquico que é caracterizado como a ideia de pertencimento ao grupo, compartilhando dos mesmos ideais e das mesmas demandas politicas, econômicas e em certa medida cultural. Ainda segundo Adorno, mesmo possuindo novas leituras, interpretações e novas demandas, esses grupos operam em algumas lógicas que os primeiros movimentos já operavam. A saber: O uso da propaganda, a desinformação; inverte-se a ideia de verdade e mentira, um mal que e comum a todos do grupo, como por exemplo o comunismo ou os comunistas. Concluímos que essas demandas estão mais que presentes no que denominamos como bolsonarismo; são o eixo central do movimento, tanto como bandeira política, como combustível para seus mais radicais apoiadores.


Nesse pequeno escrito, quis enfatizar que quando não tratamos o trauma (FREUD) na história, ele volta a se repetir, muitas vezes pior que antes. Os extremismos do século XXI evidentemente trabalham com uma nova lógica, porém se asseguram em antigos preceitos da ideologia autoritária do século anterior. Processos que atingem não só o Brasil, mas também países como Argentina, Itália e outros do leste europeu. A pobreza de experiência que Walter Benjamim flagrou naqueles soldados estão em nossa realidade presentes e formulando novos modelos de intolerância, ódio e ressentimento entre os seres humanos.


Referências bibliográficas:


ADORNO, Theodor W. Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Editora Unesp, 2020.

BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza (1933). Obras escolhidas, ensaios sobre literatura e história da cultura, v. 1, p. 123-129, 1982.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. L&PM Pocket, 2013.



* Pesquisador do Núcleo de História e linguagem contemporânea. Graduado em Historia pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

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