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A MANIPULAÇÃO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA PROMOÇÃO DA DESINFORMAÇÃO



Por Helton Rafael do Nascimento*


A pandemia de COVID-19 tem instigado reflexões profundas em algumas esferas dos conhecimentos existentes em todo o mundo. Nesse contexto, um aspecto dessas reflexões desemboca na valorização do conhecimento científico, que, em um período notavelmente curto, permitiu o desenvolvimento de vacinas eficazes contra o vírus.


Entretanto, pouca atenção tem sido dada na literatura a uma das principais causas da mutação do SARS-CoV-2 (que culminou com a pandemia) e está intrinsecamente ligada à comercialização de alimentos exóticos em mercados de rua na China. Essa mutação, em parte, resultou das mudanças climáticas, advindas do desmatamento florestal. Aqui, abro um parêntese para ressaltar como as questões ambientais estão imbricadas a uma ampla gama de conhecimentos.


Nesse sentido, a investigação de Zhao (publicada em 2007) em pesquisa realizada entre os anos de 2002 e 2003 já alertava a comunidade científica sobre a ameaça representada pelo SARS-CoV, cujos efeitos todos nós sabemos. Ainda no contexto pandêmico, o volume de “infordemia”, informações falsas e desinformações cresceu significativamente. Com efeito, uma situação emergente e desafiadora tem sido recorrente nos ciberespaços: a distinção entre fatos e desinformação que tem se tornado cada vez mais sutil, excepcionalmente pela à ausência de mecanismos reguladores que permitem que a desinformação se espalhe, enquanto os fatos genuínos enfrentam o desafio de combater essa disseminação sem um respaldo adequado.


Ainda no âmbito da desinformação, os avanços tecnológicos deram origem a ferramentas como a Inteligência Artificial (IA), cuja discussão remonta aos anos 90, mas que ganhou destaque significativo a partir de 2023. Neste cenário, áreas cruciais dos estudos no campo da tecnologia e informação têm se concentrado no entendimento do potencial uso e manipulação das IAs por parte dos usuários, especialmente em relação à interpretação e disseminação de desinformação mediante imagens e conteúdos audiovisuais em várias esferas da sociedade, como no caso das deepfakes (vídeos ou imagens alterados por inteligência artificial).


À medida que as tecnologias de IA continuam a evoluir, acredito ser imperativo pensarmos como as políticas e movimentos sociais tem se preparado para enfrentar desafios emergentes como a manipulação e disseminação da desinformação em cenários de desastres ambientais, crises sanitárias etc, que venham a se propagar mundo afora por meio de imagens manipuladas que distorcem a percepção pública e promovem agendas tendenciosas com interesses específicos, ameaçando gravemente a estabilidade social.


Diante dessa complexidade, surgem questões cruciais relacionadas à construção e preservação da memória individual, coletiva e cultural, destacando-se como um recurso fundamental para estabelecer uma base sólida de informações verídicas e promover a disseminação de conhecimento confiável. Nesse contexto, os registros de memória, como os artigos científicos, exemplificados pelo trabalho de Zhao (2007), desempenham um papel pedagógico essencial na construção e preservação de narrativas históricas, contribuindo para a autenticidade das informações em ambientes propensos à desinformação, como os ciberespaços. À vista disso, Assmann (2011, p. 267) reitera essa premissa nos mostrando que "precisamos fixar as imagens de modo a poder mantê-las na memória por um maior tempo possível".


Contudo, surge o desafio quando o acesso a esses registros de memória é limitado, considerando especialmente o contexto de memória traumática gerada pela pandemia. É neste ponto que ressalto a importância fundamental de uma das premissas constituintes da memória: lembrar para não esquecer. Ao manter viva a memória, somos capazes de identificarmos e combatermos conteúdos desinformativos, fortalecendo assim, a resiliência frente à disseminação de informações falsas.


Por último, é crucial reconhecer o papel essencial dos ambientes educacionais na preparação das pessoas para enfrentar e identificar questões relacionadas à desinformação, especialmente em contextos como os desastres ambientais e as crises sanitárias. Escolas, universidades e centros de treinamento devem integrar em seus currículos discussões que promovam a apreciação do conhecimento acerca da veracidade dos fatos a partir de habilidades digitais, capacitando os alunos a avaliarem criticamente informações, identificando manipulações midiáticas e distinguindo entre fontes confiáveis e não confiáveis.


 

REFERÊNCIAS


ASSMANN, A. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Tradução de Paulo Soethe. Campinas (SP): Editora da Unicamp, 2011.

ZHAO, GP. SARS molecular epidemiology: a Chinese fairy tale of controlling an emerging zoonotic disease in the genomics era. Philosophical Translations of the Royal Society B. In: Biological Science. Vol. 362, ed.1482: 1063–1081, 2007. Disponível em: < https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rstb.2007.2034 >. Acesso em: 05 Fev. 2024.


 


 

* Pesquisador e Escritor. Mestre em Administração e Doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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