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A ESCOLA CONTRA O GÊNIO: COMO A NORMALIZAÇÃO SUFOCA TALENTOS EXTRAORDINÁRIOS

Por Gustavo Bertoche*


Uma descoberta realizada nos meus vinte e seis anos de magistério: Quase todas as pessoas possuem um talento natural para realizar, de modo brilhante e extraordinário, alguma atividade.


Porém, esse talento quase nunca é reconhecido e desenvolvido pela escola, porque sua natureza é extra-escolar.


Ali está a menina com uma incrível habilidade social. Aquela outra que tem um senso estético refinado. A que desenha como ninguém. A que canta. A que sabe fazer uma geleia de maçã divina. A menina que tem mãos boas para plantar. O rapaz que é um líder nato nos esportes. O que escreve contos de realismo fantástico. O que instintivamente descobre os caminhos na mata. O que conversa com os cães, ou com os pássaros, ou com as flores. O que toca violão de ouvido. O que sabe fazer móveis de madeira. O que pilota sua bicicleta com leveza e graça.


A genialidade, entendida como talento extraordinário, é comum e trivial; ela está muito bem distribuída em todos os lugares e em todas as classes sociais - e tanto pode ser inata quanto construída desde a infância.

A idéia de que os gênios são raros é uma das grandes mentiras criadas pela escolarização universal e compulsória - uma mentira que, de tantas vezes contada, tornou-se lugar-comum.


* * *


A escola é uma indústria de produção de "normalidade": o verdadeiro currículo escolar é o da normalização da humanidade. Ou: a escola fabrica proletários de corpo e alma bem treinados, capazes de manter o corpo e a inteligência imobilizados por horas, para produzir ou vender, em troca de baixos salários, algo que não lhes pertence.


Por isso, a escola precisa matar o gênio dentro de cada indivíduo. Precisa desvalorizar as habilidades sociais e manuais, castrar a inteligência prática, proibir o corpo de realizar as suas potências. A escola precisa, enfim, adestrar a pessoa livre, para que se torne escrava por sua própria vontade, acorrentada por grilhões imaginários, aterrorizada pela possibilidade do desemprego na sociedade de consumo.


A escola universal e obrigatória é uma máquina criada com o propósito de transformar gênios capazes de viver de seus talentos em fracassados em busca de emprego.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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