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A ARGENTINA E O DIREITO DE NÃO FAZER NADA: QUANDO A MODERNIDADE DECIDE ANDAR PARA TRÁS

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


Eita, a modernidade… Sempre tão criativa quando decide reinventar a roda, e, se possível, vendê-la como inovação disruptiva. O recente avanço das reformas trabalhistas sob o governo de Javier Milei, com a flexibilização (ou supressão) de direitos históricos como os 30 dias de férias, é apresentado como gesto de libertação econômica. Libertação de quê? Do descanso, ao que parece.


Como estudioso da Teoria do Lazer, não posso deixar de observar, com certo fascínio antropológico e algum sarcasmo metodologicamente controlado, essa tentativa de converter o trabalhador em máquina de produtividade contínua, como se o corpo humano tivesse bateria infinita.


Desde Paul Lafargue, com seu célebre O Direito à Preguiça, sabemos que o descanso não é vício moral, mas conquista histórica. Lafargue, genro de Marx e herege do produtivismo, já denunciava no século XIX a idolatria do trabalho como patologia social. Retirar férias não é modernizar: é regressar a um estágio pré-civilizatório onde o tempo livre era privilégio aristocrático.


Mas avancemos.


Joffre Dumazedier, um dos pais da sociologia do lazer, definiu o lazer como o conjunto de ocupações às quais o indivíduo se entrega de livre vontade, após libertar-se das obrigações profissionais e sociais. O detalhe é importante: após libertar-se. Se o tempo de libertação é reduzido, o lazer deixa de ser esfera de desenvolvimento humano e torna-se migalha de compensação.


Imagino que, na nova cartilha ultraliberal, Dumazedier seria acusado de intervencionismo recreativo.


Domenico De Masi (com as minhas muitas ressalvas), em sua defesa do “ócio criativo”, demonstrou algo que qualquer pessoa minimamente atenta à história cultural já percebeu: as grandes criações humanas, filosóficas, artísticas, científicas, nasceram no intervalo entre obrigações. O excesso de trabalho não produz genialidade; produz exaustão.


Mas talvez estejamos desatualizados. Talvez o novo paradigma seja o do “cansaço produtivo permanente”, no qual a criatividade floresce entre uma tarefa e um burnout.


Na mesma linha, Sebastian de Grazia argumentava que o lazer autêntico é condição para a liberdade democrática. Sociedades que esmagam o tempo livre tendem a reduzir o cidadão a agente econômico. E, convenhamos, cidadão que não descansa tampouco questiona.


Retirar 30 dias de férias sob o pretexto de eficiência econômica é uma espécie de milagre contábil: supõe-se que mais horas trabalhadas equivalem automaticamente a mais riqueza social. A literatura em estudos do trabalho e lazer mostra o contrário: produtividade sustentável exige recuperação física, mental e simbólica.


Como pesquisador do campo do lazer, sei que o descanso prolongado não é luxo, é condição de saúde coletiva. O tempo de férias permite:

  • recomposição psíquica

  • fortalecimento dos vínculos familiares

  • ampliação da participação cultural

  • exercício da cidadania


Eliminar ou reduzir esse direito é transformar o trabalhador em habitante permanente da urgência. E a urgência contínua é excelente para mercados nervosos, mas péssima para democracias.


Talvez estejamos diante de um novo humanismo: o humanismo do turno estendido. Uma civilização onde o descanso é suspeito, o ócio é subversivo e a praia é quase um ato revolucionário.


Enquanto isso, continuo estudando a Teoria do Lazer, esse campo aparentemente perigoso que insiste em afirmar que o ser humano não nasceu apenas para produzir, mas também para contemplar, amar, criar, errar, vagar e, veja só, descansar.


Se o futuro é trabalhar sem férias, então ouso propor, com todo rigor acadêmico, que voltemos também às máquinas de escrever e às jornadas de 14 horas. Afinal, progresso mesmo é quando se anda para trás com convicção ideológica.


No Brasil, o embate da jornada 6x1 é emblemático deste processo. Não se iludam: a direita quer transformar o trabalhador em suco de produtividade, vendendo a falsa ideia da meritocracia. Milei acaba de fazer o que Temer começou e bolsonaro terminaria.


Como diria Lafargue, talvez ainda seja preciso defender, contra os apóstolos da eficiência, o mais subversivo dos direitos: o direito de não fazer nada.





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação

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